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São Paulo
11 de setembro de 2026

Na era da IA, cultura é processo, ação e repetição

Mateus Mendes (*)

É notório que a inteligência artificial já ganhou espaço no dia a dia das pessoas e das empresas, principalmente pelo potencial de automatizar tarefas, analisar dados e sugerir melhorias em processos, mas a visão de que ela está em todo lugar e já alcançou toda a sua capacidade ainda é um tanto quanto míope. De acordo com o artigo “Your IA Change is Actually a People Change”, publicado pela BCG, atualmente só 5% das empresas obtêm um valor substancial com a IA, enquanto 60% relatam nenhum valor significativo com ela.

Os dados alertam para algo que já percebo há um tempo dentro do setor de tecnologia: que a inteligência artificial faz mais sentido quando está intrinsecamente ligada à empresa, não isoladamente, mas fazendo parte de um processo e de toda a cultura da organização, porque ela tem a ver também com o que os líderes e funcionários pensam, sentem e fazem. Segundo a BCG, quando as transformações impulsionadas por IA nas organizações dão certo, 70% delas é por uma derivação de ação relacionada às pessoas, e não à tecnologia.

No meu dia a dia, como CTO de uma organização que atua com prevenção a fraudes de identidade e biometria facial, estou acostumado a lidar com o surgimento de uma ideia por segundo, tranquilamente. Tanto eu como o time, ou os clientes, somos muito propositivos, e isso está na nossa raiz, no que acreditamos que dá certo para uma empresa prosperar. Nitidamente, dá para entender que não seremos capazes de lidar com esse tanto de novidades se não contarmos também com a IA.

O que fazemos então é, a cada nova ideia, tirá-la do papel usando a inteligência artificial. A partir da prototipagem e do brainstorm, nós conseguimos criar, com a IA, a ideia e como gostaríamos que fosse aquele produto, isto é, o que a gente espera dele. Mesmo que seja apenas um MVP, nosso ponto é conseguir tirar a ideia do papel e validar se ela é executável. E, caso seja, executá-la; caso não, entender por que não é. Além disso, também temos uma visão computacional muito forte, então criamos modelos proprietários, brasileiros, para o nosso trabalho.

Isso inclui detecção de documentos, leitura de dados e escrita de código, entre outras funções. Na área de Recursos Humanos, por exemplo, nós testamos vários sistemas para usarmos na empresa, mas depois descobrimos que conseguíamos criar um melhor para as nossas necessidades e dia a dia, então criamos. Consigo dizer com tranquilidade que a IA está intrínseca em nosso negócio.

Por isso, acho curioso, mas certeiro que, segundo dados da BCG e McKinsey, algumas das causas de fracasso quando o assunto são as transformações de IA são a má gestão de mudanças (43%) e o desalinhamento entre os projetos e a estratégia de negócios (35%), sendo que falhas tecnológicas representam menos de 20% do baixo desempenho. Isso porque a maioria das empresas não consegue passar da fase dos testes e usos isolados da IA no trabalho.

Percebo também que a dificuldade em escalar faz parte de um erro comum de perspectiva, a confusão entre a adoção individual da IA com a transformação do modelo operacional a partir dela. Colocar chats inteligentes e assistentes virtuais nas mãos das equipes e esperar que o negócio mude sozinho é uma ilusão. O valor real só irá explodir quando as empresas decidirem redesenhar os processos do zero, repensando as técnicas, a disposição dos elementos e o fluxo de trabalho.

Ou seja, a tecnologia não vai gerar vantagem competitiva sustentável porque os funcionários passaram a usá-la de forma isolada. É preciso redesenhar os processos e as tomadas de decisão a partir do que ela torna possível. Por isso, insisto, que a cultura não se instala com um comunicado geral na segunda-feira. Ela é fruto de processo, ação e repetição e se constrói quando a liderança atua de forma ativa, trazendo a tecnologia para o dia a dia, estabelecendo rituais corporativos frequentes para debater e ajustar as dores e os progressos das equipes.

A inteligência artificial cria o potencial bruto, mas são as pessoas, alterando suas rotinas coletivas e repetindo novos comportamentos todos os dias, que transformam esse potencial em valor real para a empresa. Se você quer que sua empresa lidere essa nova fronteira, comece a redesenhar seus processos, lidere pelo exemplo prático e repita.

(*) Cofundador e CTO da Legitimuz.