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18 de fevereiro de 2026

RFID acelera inventário de medicamentos controlados em farmácias e melhora custo operacional

João Ricardo Costa (*)

O controle de medicamentos sujeitos a prescrição especial sempre foi uma das rotinas mais sensíveis e onerosas da operação farmacêutica. Não apenas pelo rigor regulatório envolvido, mas principalmente pelo impacto direto na rotina dos profissionais. A cada inventário de medicamentos controlados, farmacêuticos precisam interromper o atendimento ao público e suspender atividades clínicas para se dedicar exclusivamente à contagem, conferência e validação dos estoques. Em um setor no qual tempo e atenção são recursos escassos, esse deslocamento de função representa um custo operacional relevante e recorrente.

Essa questão ganhou mais peso desde o ano passado, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) restabeleceu a obrigatoriedade do envio eletrônico regular de dados de estoques e movimentações de medicamentos controlados por meio do SNGPC (Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados), após um período de suspensão técnica. A exigência reforçou a necessidade de alinhamento absoluto entre o que está registrado nos sistemas e o que, de fato, está armazenado nas prateleiras das farmácias.

Diante disso, o varejo farmacêutico passou a olhar com mais atenção para tecnologias capazes de reduzir o impacto operacional desses inventários. Entre elas, o RFID (Radio-Frequency Identification, ou Identificação por Radiofrequência) desponta como alternativa para transformar um dos processos mais trabalhosos da rotina farmacêutica: a conferência manual de medicamentos controlados, que hoje exige a paralisação parcial ou total da atuação dos farmacêuticos no atendimento e nas funções clínicas.

A legislação brasileira é clara ao determinar que farmácias mantenham registros fidedignos das entradas, saídas e estoques desses medicamentos, garantindo que o volume escriturado seja exatamente o mesmo encontrado fisicamente. Inventários divergentes representam risco regulatório e sanitário. No entanto, o desafio cotidiano não está apenas em cumprir a norma, mas em fazê-lo sem comprometer o funcionamento da farmácia e a qualidade do serviço prestado ao consumidor.

Inventário manual: precisão alta, mas com alto custo operacional

Para atender às exigências, farmácias realizam inventários periódicos dos medicamentos controlados, conferindo frasco a frasco, caixa a caixa. O processo manual é reconhecidamente preciso, com níveis de acuracidade próximos de 99,7% quando bem executado. Ainda assim, trata-se de uma operação longa, repetitiva e exaustiva, que demanda dedicação exclusiva de profissionais habilitados.

Na prática, um inventário completo pode consumir dez horas ou mais de trabalho concentrado. Para evitar impacto direto no fluxo da loja, essa atividade costuma ser realizada fora do horário comercial ou durante madrugadas. Quando isso não é possível, o farmacêutico precisa interromper o atendimento ao público e suspender atividades clínicas para se dedicar exclusivamente à contagem e validação dos estoques.

Esse deslocamento de função tem efeito direto no custo operacional. Em grandes redes, que chegam a controlar até quatro mil medicamentos de uso controlado, o tempo acumulado gasto em inventários pode representar um custo mensal estimado em milhões de reais, considerando horas improdutivas, necessidade de reforço de equipe ou pagamento de horas extras. Mesmo em farmácias de menor porte, o impacto é sentido na redução da capacidade de atendimento e na sobrecarga dos profissionais.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas regulatória e passa a ser operacional. O processo funciona, mas consome tempo demais de quem deveria estar focado no cuidado farmacêutico e na orientação ao paciente.

Mais eficiência operacional com RFID

Nesse contexto, o avanço das tecnologias de identificação automática passa a fazer sentido. O RFID, já amplamente utilizado em logística e varejo, começa a ser incorporado ao ambiente farmacêutico justamente por atacar o principal gargalo do inventário: o tempo e o esforço humano envolvidos.

A tecnologia se baseia em etiquetas eletrônicas afixadas aos produtos, capazes de armazenar dados e transmitir informações por radiofrequência. Ao passar um leitor próximo a uma prateleira ou gaveta, centenas de itens podem ser identificados simultaneamente, sem necessidade de contato visual direto, diferentemente do código de barras. Em poucos segundos, o sistema captura dados como código do produto, lote e validade, gerando uma leitura completa do estoque.

Com isso, tarefas que antes exigiam horas de contagem manual passam a ser concluídas em uma fração desse tempo, utilizando menos recursos humanos. Há cenários em que o RFID é capaz de realizar centenas de leituras em poucos minutos, reduzindo drasticamente o tempo de inventário. A digitação manual de informações deixa de existir, o que reduz o risco de erro e aumenta a confiabilidade do processo.

Mais do que acelerar a contagem, a tecnologia altera a dinâmica da operação. Divergências entre o estoque físico e o sistema são identificadas quase instantaneamente, permitindo correções imediatas. Em vez de procurar erros ao final de um processo longo, o farmacêutico atua de forma pontual e estratégica, sem precisar suspender suas atividades por longos períodos.

Menos interrupções, mais foco no cuidado

Outro ganho relevante está na fase de reposição e controle contínuo do estoque. Sistemas automatizados com RFID identificam rapidamente itens fora de posição, quantidades acima ou abaixo do esperado e produtos próximos ao vencimento. Isso reduz perdas, evita faltas e diminui retrabalho.

O impacto mais significativo, no entanto, está na rotina do farmacêutico. Ao reduzir o tempo dedicado a inventários manuais, a tecnologia devolve horas de trabalho para atividades clínicas, atendimento ao público e gestão do negócio. A conferência deixa de ser um evento disruptivo e passa a ser integrada à rotina, sem exigir pausas prolongadas ou mobilização extra de equipe.

No Brasil, a adoção do RFID em farmácias ainda está em fase inicial, mas há sinais claros de amadurecimento. A queda no custo das etiquetas, o acesso facilitado a coletores e a maior integração com sistemas de gestão criam um ambiente favorável para a expansão dessa tecnologia. O movimento acompanha uma tendência global de modernização operacional no setor farmacêutico.

Hoje, o debate não gira mais em torno de adotar ou não tecnologia, mas de escolher soluções que equilibrem custo operacional, retorno sobre investimento, precisão e uso inteligente do tempo. Farmácias que permanecem dependentes exclusivamente de inventários manuais continuam aptas a cumprir as exigências legais, mas o fazem sob um modelo que impõe mais esforço do que o necessário. Já aquelas que avançam na automatização ganham eficiência, previsibilidade e uma operação mais alinhada às demandas atuais do setor.

(*) Head da Selbetti Label Solutions.