Oscar Isaka, Diretor Analista Sênior da consultoria, conversa com os jornalistas, destaca que a integridade das bases usadas no treinamento de modelos de inteligência artificial ainda é um dos principais desafios para empresas

Poucas empresas têm 100% de certeza sobre integridade dos próprios dados, afirmou Oscar Isaka, Diretor Analista Sênior do Gartner, em coletiva com a imprensa durante o Conferência Gartner Segurança & Gestão de Risco, realizado nos dias 04 e 05 de agosto em São Paulo.
A conversa com jornalistas foi no primeiro dia do evento e o analista do Gartner chamou atenção para os riscos que a qualidade e a confiabilidade das informações representam na adoção de inteligência artificial pelas organizações. A declaração reforça a necessidade de governança, validação e controles robustos sobre os dados que alimentam sistemas de IA, especialmente em ambientes corporativos sensíveis.
Em um cenário em que empresas ampliam rapidamente o uso de inteligência artificial em processos estratégicos, a integridade dos dados passa a ser um fator decisivo para garantir precisão, segurança e confiabilidade nos resultados gerados. Sem essa base, os modelos podem produzir vieses, erros e inconsistências, comprometendo decisões de negócio e ampliando riscos operacionais e reputacionais.
O tema ganha ainda mais relevância diante da crescente convergência entre cibersegurança e IA. Especialistas defendem que, para escalar o uso da tecnologia com responsabilidade, as organizações precisam investir não apenas em inovação, mas também em práticas sólidas de governança de dados, monitoramento contínuo e proteção da informação.
“A adoção de inteligência artificial precisa estar ancorada em dados confiáveis. Sem integridade, rastreabilidade e controle, o risco de decisões equivocadas aumenta significativamente.”, destacou Oscar Isaka. A segurança da informação e a qualidade dos dados caminham juntas. Empresas que desejam extrair valor real da IA precisam tratar a governança como prioridade estratégica. O desafio não está apenas em usar a IA, mas em garantir que ela opere sobre bases consistentes, seguras e transparentes.”, enfatiza ele
Outros destaques abordados pelo analista durante a Conferência Gartner Segurança & Gestão de Risco,
Os Chief Information Security Officers (CISOs) devem repensar a forma como conduzem segurança, identidade e inovação conforme a Inteligência Artificial (IA) acelera tanto as oportunidades quanto as disrupções.
Para se manterem à frente nesse cenário, os líderes de cibersegurança devem concentrar esforços em três prioridades: modernizar a identidade como infraestrutura fundamental; redefinir o sucesso da segurança cibernética com base na resiliência, em vez de prevenção; e reduzir as barreiras à inovação para que as equipes possam experimentar de forma segura, escalar a automação e aplicar IA onde ela gera valor imediato e mensurável.
Oscar Isaka destaca três áreas-chave nas quais as organizações devem se concentrar conforme elas recorrem à IA como uma oportunidade para modernizar a identidade tanto humana quanto de máquinas.
- Investimentos corporativos em IA para modernizar a Gestão de Identidade e Acesso (IAM)
Os investimentos corporativos em IA estão forçando uma reavaliação há muito necessária da Gestão de Identidade e Acesso (IAM). O rápido crescimento de agentes de IA, cargas de trabalho automatizadas e interações entre máquinas estão sobrecarregando programas de IAM que já enfrentavam desafios decorrentes da complexidade da nuvem e das práticas de DevOps. A identidade deixou de ser apenas uma função de controle em segundo plano para se tornar parte central da infraestrutura digital, e os modelos legados, desenvolvidos para usuários humanos e funções estáticas, mostram-se cada vez mais desconectados da realidade atual.
A IA introduz uma nova camada arquitetônica baseada em delegação, autonomia e contexto, em vez de permissões fixas. Os controles tradicionais de acesso baseados em funções e os processos convencionais de integração (onboarding) não conseguem escalar para ambientes compostos por milhares ou até milhões de identidades de máquinas operando continuamente.
À medida que os sistemas baseados em agentes se expandem, práticas inadequadas de gestão dessas identidades e a ausência de políticas sensíveis ao contexto tornam-se as principais fontes de risco.
Por esse motivo, o Gartner prevê que, até 2028, 25% das violações de segurança ocorrerão por meio de superfícies de ataque baseadas em agentes, em decorrência de identidades de máquinas inadequadas e da ausência de controles de políticas sensíveis ao contexto.
“Essa pressão também representa uma oportunidade estratégica”, afirma Isaka. “Em vez de adicionar novas ferramentas a estruturas já frágeis, as organizações podem utilizar os investimentos em IA para acelerar a modernização da IAM. À medida que as interações entre clientes, parceiros e colaboradores se tornam cada vez mais mediadas por máquinas, controles robustos de identidade e confiança deixam de ser apenas uma necessidade e passam a representar um diferencial. Empresas capazes de incorporar e governar cargas de trabalho de máquinas de forma segura e mais rápida conquistam vantagens reais em velocidade, integração e confiança.”
- A normalização dos ataques cibernéticos redefine como as organizações saem vencedoras
Os ataques cibernéticos tornaram-se uma característica normal dos negócios modernos, e não mais falhas excepcionais. Mercados, órgãos reguladores e clientes tratam cada vez mais os incidentes como inevitáveis, e não necessariamente como evidência de negligência. À medida que ataques impulsionados por IA aumentam em velocidade e volume, tentativas de definir o sucesso exclusivamente pela prevenção tornam-se cada vez menos realistas e impossíveis de comprovar. Essa normalização cria uma oportunidade importante para repensar como o sucesso da segurança cibernética é definido e comunicado.
“A resiliência, e não a prevenção, é a estratégia com a qual as organizações podem realmente ter sucesso”, diz Isaka. “Se o objetivo passa a ser limitar o impacto, manter as operações críticas e se recuperar rapidamente, então a mitigação torna-se, do ponto de vista dos resultados de negócios, funcionalmente equivalente à prevenção. Ao contrário da segurança absoluta, a resiliência pode ser testada, praticada, medida e aprimorada ao longo do tempo.”
Para operacionalizar essa mudança, as organizações devem estabelecer limites claros de impacto vinculados às cadeias de valor de missão crítica para os negócios. Esses limites determinam quais níveis de disrupção são aceitáveis e onde o tempo de recuperação realmente faz diferença, criando uma responsabilidade compartilhada entre a área de segurança cibernética e o negócio.
- Reduzindo as barreiras para a inovação
A inovação em segurança cibernética muitas vezes parece inacessível porque é vista como um trabalho adicional que se soma à carga excessiva das equipes. A realidade é que a inovação já está ocorrendo diariamente nas áreas de segurança, TI e engenharia. Improvisações na resposta a incidentes, integração de ferramentas, soluções alternativas e aperfeiçoamentos no fluxo de trabalho são, todos, atos de inovação. O problema não é a falta de criatividade ou de esforço, mas o fato de que esse trabalho raramente é reconhecido, mensurado ou protegido como inovação.
Nesse contexto, o Gartner prevê que, até 2028, organizações que implementaram efetivamente IA em Centros de Operações de Segurança (SOCs) reduzirão em 30% os incidentes que exigem intervenção humana, iniciando a transição do papel do analista de “executor da resposta” para “supervisor”.
“Atividades como criar ambientes de testes, simular ataques, gerar lógica de detecção ou ensaiar cenários de recuperação já não exigem grandes equipes especializadas nem longos ciclos de planejamento”, afirma Isaka.
“Essas iniciativas podem ser incorporadas ao trabalho operacional cotidiano por meio de engenharia de software assistida por IA e automação. Quando os experimentos apresentam baixo risco, mas estão conectados a sistemas e resultados reais, as equipes adquirem experiência prática ao mesmo tempo em que produzem artefatos que a organização pode reutilizar.”
Para sustentar isso, os líderes devem proteger explicitamente tempo e espaço para a experimentação. A inovação deve ser tratada como uma atividade voltada ao desenvolvimento de competências e de resiliência, e não como um projeto paralelo opcional. Medir o conhecimento adquirido e a escala alcançada permite que as organizações convertam inovação em valor demonstrável para os negócios, facilitando a justificativa para investimentos contínuos.
