16.3 C
São Paulo
28 de outubro de 2026

IA pode acrescentar R$ 1 trilhão ao PIB brasileiro até 2030, destaca ABES Summit 2026

Evento realizado pela ABES em parceria com a Fiesp reúne governo e lideranças empresariais para discutir competitividade, novos modelos de negócio e os desafios da inteligência artificial

Foto @WillianOsiro

A inteligência artificial pode acrescentar até R$ 1 trilhão ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro até 2030, mas transformar esse potencial em crescimento econômico exige investimentos em infraestrutura, capacitação profissional e mudanças nos modelos de negócio. O tema esteve no centro dos debates da manhã do ABES Summit 2026, realizado nesta terça-feira (27) pela Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), no Teatro do SESI-SP, em São Paulo. Com o tema “Reinventar para competir na era da IA”, o encontro reúne representantes do governo, da indústria e do setor de tecnologia.

A abertura contou com Andriei Gutierrez, presidente da ABES e cofundador da Innova Assuntos Públicos; Felicio Ramuth, vice-governador de São Paulo; Rodrigo Dienstmann, presidente da Ericsson Brasil, representando Paulo Skaf, presidente da Fiesp; e Floriano Pesaro, diretor da ApexBrasil, representando o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin.

Um dos principais anúncios da abertura foi feito por Felicio Ramuth, que informou que estará à frente dos projetos de tecnologia e inovação do governo paulista nos próximos quatro anos, buscando acelerar a transformação digital das secretarias estaduais. “Eu vou estar à frente justamente dos projetos de tecnologia e inovação do nosso Governo de Estado, em todas as áreas”, afirmou.

O vice-governador também destacou que São Paulo reúne aproximadamente R$ 100 bilhões em investimentos em data centers, defendeu avanços na regulamentação do REDATA e alertou para os impactos da reforma tributária sobre o setor de software e serviços. Em relação à inteligência artificial, ressaltou a necessidade de uma regulamentação que não comprometa a inovação e a competitividade.

Para Andriei Gutierrez, a transformação digital deve ser prioridade dos próximos governos, com políticas de longo prazo, governança e investimentos em infraestrutura. O presidente da ABES também defendeu que a inteligência artificial deixe de ser tratada como uma iniciativa restrita às áreas de tecnologia. “É uma tecnologia revolucionária que precisa estar lá, na estratégia, na revisão do negócio, na revisão, muitas vezes, de todo o modelo, de toda a concepção organizacional”, destacou.

Representando a Fiesp, Rodrigo Dienstmann defendeu que o Brasil aproveite a revolução da IA para ampliar seu protagonismo tecnológico, em vez de atuar apenas como consumidor de soluções internacionais. Já Floriano Pesaro destacou os resultados da parceria da ApexBrasil com a Softex, que apoia 298 empresas brasileiras de tecnologia. Segundo os dados apresentados, essas companhias registraram aproximadamente US$ 1,18 bilhão em exportações em 2025, com crescimento de 48,7% no ciclo iniciado em 2023.

Durante a abertura, Paulo Skaf e Felicio Ramuth também foram anunciados como Embaixadores do Prêmio Brasil, País Digital 2026.

IA exige estratégia para transformar investimentos em valor

O potencial de acrescentar R$ 1 trilhão ao PIB brasileiro até 2030 foi apresentado por Tania Cosentino, ex-presidente da Schneider Electric e da Microsoft no Brasil, atualmente conselheira do International Chamber of Commerce (ICC) e conselheira independente da WEG, durante o keynote “O novo motor do valor: como a IA está redesenhando as empresas”.

Segundo pesquisa do Boston Consulting Group (BCG) citada pela executiva, o percentual de organizações que capturam valor com inteligência artificial em escala passou de 5% para 50% em aproximadamente um ano. Apesar do avanço, Tania alertou que muitas empresas ainda não conseguem converter projetos experimentais em resultados concretos.

“Entre fazer piloto e desbloquear valor, existe um abismo”, afirmou. Para a executiva, a competitividade depende da capacidade de incorporar a IA às decisões estratégicas, desenvolver novos produtos e serviços e identificar oportunidades de crescimento.

A expansão dos agentes autônomos também exige atenção à governança. Conforme os indicadores apresentados, 42% das empresas estão avançando na adoção dessa tecnologia até 2030, mas apenas 5% dispõem de controles adequados para sua operação segura.

“Estou vendo muita gente querendo gastar em IA e não querendo gastar em cyber. Isso é um grande erro que pode trazer consequências desastrosas para a sua organização”, alertou. “O risco quem assume é você, não é o algoritmo.”

Tania também destacou que o Brasil concentra aproximadamente 1% dos data centers mundiais e que a expansão da infraestrutura nacional poderia movimentar R$ 90 bilhões em investimentos adicionais até 2030, com potencial de gerar mais de 55 mil empregos diretos e indiretos.

Para aproveitar essas oportunidades, defendeu uma estratégia nacional que integre infraestrutura, energia, desenvolvimento industrial, educação e pesquisa, além da preparação de lideranças e profissionais. “O futuro do trabalho não é a IA contra o humano, é o humano mais a IA, trazendo um futuro melhor para todos”, concluiu.

Competitividade depende da reinvenção dos modelos de negócio

A necessidade de transformar a adoção de inteligência artificial em resultados econômicos foi aprofundada no painel “Seu modelo de negócio ainda funciona? Valor, competitividade e reinvenção na era da IA”, que reuniu Cezar Taurion, consultor de tecnologia e CEO da Redcore; Gustavo Gierun, cofundador e CEO do Distrito; e Tania Cosentino, sob moderação de Daniella Caverni, diretora administrativa da ABES.

Para Taurion, os projetos devem partir dos problemas empresariais, e não da escolha de ferramentas. O especialista questionou a utilização da quantidade de agentes implementados como indicador de sucesso e defendeu que os investimentos sejam avaliados pela capacidade de gerar resultados econômicos sustentáveis.

“Não se começa pela tecnologia”, afirmou. Segundo Taurion, quando a eficiência operacional deixa de responder aos desafios competitivos, é necessário rever o próprio modelo de negócio. O tema também é abordado em seu novo livro, “IA do Hype ao ROI”, lançado em outubro.

Gustavo Gierun destacou que a transformação exige estratégia, governança, capacitação profissional e disciplina de execução. O executivo apresentou a experiência do Distrito, que iniciou sua jornada de IA internamente, com treinamento de equipes, testes orientados por métricas e automação de processos, antes de levar esse conhecimento aos clientes.

“Eu acredito que a maioria das empresas subestima o custo da transformação organizacional”, alertou. Para Gierun, os desafios vão além dos investimentos em ferramentas e infraestrutura, envolvendo mudanças culturais e preparação das lideranças. Ele também chamou a atenção para os riscos de sobrevivência das empresas que não acompanharem as transformações tecnológicas.

Tania Cosentino reforçou que ganhos de produtividade, isoladamente, não garantem diferenciação competitiva. A executiva defendeu que as organizações utilizem seus conhecimentos, processos e dados exclusivos para desenvolver novos produtos e mercados. Como exemplos, mencionou a aplicação de IA ao conhecimento industrial da WEG e a entrada do iFood no mercado de crédito para restaurantes.

“O que meu cliente precisa hoje, que eu não estou fazendo, que eu não estou enxergando?”, provocou. Ao alertar para os riscos de investimentos motivados apenas pela pressão do mercado, resumiu: “FOMO não é uma decisão estratégica”.

Os participantes convergiram na avaliação de que a inteligência artificial exige mais do que adoção tecnológica. Para gerar valor sustentável, as empresas precisam preparar lideranças, revisar processos, desenvolver competências e incorporar governança e segurança às estratégias de transformação.

IA agêntica transforma operações e exige novos modelos de governança

A aplicação prática da inteligência artificial agêntica nas empresas foi o foco do painel “A indústria na era dos agentes: o que muda na operação, na cadeia e no cliente”, moderado por Silvia Bassi, publisher da The Shift, com a participação de Roberta Ezar, sócia de Digital, Data e Analytics da EY; Rafael Borger, sócio e Head de Produto e Inovação do iFood; e Paulo Cocato, gerente executivo de Dados & AI da Motiva.

Rafael Borger revelou que o iFood já utiliza mais de 10 mil agentes de inteligência artificial e destacou aplicações que vão da automação de processos internos ao apoio à gestão de restaurantes e à criação de novas experiências de consumo. Segundo o executivo, a companhia também destina 50% da verba de desenvolvimento individual à capacitação em IA, buscando ampliar a adoção da tecnologia entre os profissionais.

Para Roberta Ezar, a expansão dos agentes exige uma mudança na forma como as organizações avaliam seus investimentos. “Quantidade de agentes é uma métrica de adoção, não uma métrica de valor”, afirmou. A executiva ressaltou que a operação em escala depende de arquitetura tecnológica, integração de dados, mecanismos de segurança e definição clara das responsabilidades de cada agente. “A governança tem que ser by design, ela não vem para travar, ela vem para apoiar”, acrescentou.

Na Motiva, a estratégia passa pela centralização das aplicações de inteligência artificial em uma plataforma interna, permitindo transformar o conhecimento produzido pelos agentes em um ativo corporativo. Paulo Cocato destacou que a tecnologia pode apoiar atividades como análise de contratos, compras e processos operacionais, mas que a autonomia dos sistemas deve respeitar os riscos de cada atividade.

“Ele não é um chatbot, no final ele age”, afirmou Cocato, ao chamar a atenção para a necessidade de definir limites e responsabilidades. Em operações críticas, especialmente aquelas que envolvem a segurança de funcionários e usuários, a decisão final deve permanecer sob supervisão humana.

O debate evidenciou que a adoção de agentes autônomos pode ampliar a eficiência e transformar a experiência de clientes e parceiros, desde que acompanhada de investimentos em governança, qualidade dos dados e capacitação profissional.